Ódio digital impulsiona violência contra mulheres no país
Especialistas alertam como grupos de ódio na internet recrutam jovens e incentivam a violência contra mulheres no Brasil.
Nas últimas semanas, crimes brutais contra mulheres no Brasil evidenciaram como grupos de ódio na internet impulsionam a violência no mundo real. Segundo especialistas, os ataques não são isolados, mas o resultado de um sistema estruturado nas redes sociais que recruta desde cedo meninos e homens, explorando suas frustrações emocionais e financeiras para promover o extremismo e o feminicídio.
A gravidade do problema ganhou destaque nacional com episódios como o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro e o assassinato de uma policial militar em São Paulo pelo próprio marido. As investigações revelaram que o atirador usava em suas conversas termos comuns em comunidades online que pregam a submissão feminina, como “macho alfa”. Ao mesmo tempo, vídeos que simulam agressões a mulheres que rejeitam pedidos de casamento se espalham no TikTok.
O recrutamento para essa rede de ódio — frequentemente chamada de “machosfera” — atinge idades cada vez menores. Meninos de 12 a 14 anos são atraídos em plataformas de comunicação de jogos, como o Discord, e em aplicativos de mensagens. Muitas vezes, os grupos usam o disfarce de canais sobre desenvolvimento pessoal, esportes ou conselhos jurídicos para atrair o público. Aos poucos, introduzem narrativas de ressentimento e xingamentos contra mulheres para testar e cooptar os jovens.
A falta de diálogo familiar e a vulnerabilidade emocional são os principais combustíveis para essa radicalização. Psicólogos alertam que adolescentes que não têm com quem conversar em casa são alvos fáceis. Entre os adultos, a frustração por não atingirem expectativas de sucesso financeiro ou amoroso faz com que culpem as mulheres por seus problemas, assumindo uma falsa posição de vítimas.
No topo dessa cadeia, no entanto, há organização e dinheiro. Especialistas apontam que as plataformas de tecnologia lucram com a propagação desses conteúdos e falham ao não punir canais que defendem a morte de mulheres, diferentemente do rigor aplicado a outros temas. Além disso, o discurso ganha força política ao se aliar a movimentos extremistas que buscam manter os homens no centro do poder social.
Para combater essa realidade, os pesquisadores afirmam que a solução exige ações simultâneas. Entre as medidas mais urgentes estão a criação de uma lei que transforme a misoginia em crime no país, a cobrança firme sobre o que as empresas de tecnologia permitem em suas plataformas e, fundamentalmente, o investimento na educação de meninos e adolescentes, ensinando-os a lidar com conflitos e frustrações por meio do diálogo, e não da violência.
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